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Coisas (des)Interessantes

Coisas (des)Interessantes

24
Mai21

6 meses de uma vida a dois

mudadelinha

Nem parece que já passaram seis meses desde o início desta aventura a dois. O que até considero bom sinal, nem dei pelo tempo a passar, e num instante já partilhamos o mesmo espaço há seis meses.

 

Dou por mim a ter preocupações de adulta e a rir-me, o que é realmente assustador, quando me perguntam “O que estás a fazer?” ou “O que é que fizeste no fim de semana?” e as minhas respostas são “Estive a lavar roupa, ou a pôr a roupa a secar, a aspirar a casa toda, a arrumar a cozinha, a preparar a comida para o resto da semana” e coisas similares. Digo assustador, porque nunca pensei que o fosse dizer, mas é intensamente bom quando rumo caminho a casa no fim do horário de trabalho e sei que tenho a minha casa à espera. Não é que não o fosse em casa dos meus pais, pelo contrário, mas acho que entendem que é diferente.

Passo a semana a pensar que no fim de semana vou descansar, que não vou fazer nada, que me vou deitar no sofá e que por lá vou ficar, e na verdade, chega terça-feira e não descansei nada no sofá, porque andei a arrumar ou a cozinhar, mas que me soube muito bem, porque não sei estar em casa quieta, há sempre alguma coisa para fazer.

Os primeiros tempos foram incrivelmente cansativos. Demos este passo, estava sem trabalho, fazia apenas uns trabalhos como freelancer em casa, ele não conseguiu tirar férias, então a mudança foi feita um bocadinho às três pancadas. Quando entrou o segundo confinamento, em janeiro deste ano, ele voltou a ficar em lay-off, e eu começo a trabalhar. Inicialmente num part-time de 4 horas, e posteriormente passei a full-time. Então estava ele em casa todos os dias, e lá foi pondo as coisas ao sítio. Mas andamos meses para conseguir ter a cozinha prática e à nossa maneira, a sala foi a primeira divisão que ficou pronta, mas o segundo quarto a que chamamos de escritório, não vos digo, nem vos conto. Aquela divisão da casa foi mais o quarto dos arrumos de uma mudança, que nem sabemos bem o que é, porque tem lá tudo o que é tralha, caixas e sacos das mudanças, calçado por arrumar, tapetes para pôr no sitio, enfim, todo um mundo de coisas. Supostamente, será para fazermos o nosso escritório, porque com as coisas todas da faculdade preciso muito de um sitio para trabalhar.

 

Fora toda esta aventura das arrumações e das mudanças, tem sido inspirador esta nova fase. Acho que ainda estou na fase do mar de rosas, em que é lindo passar a ferro, lavar a loiça, lavar e estender a roupa. Talvez como o tempo é tão curto seja por isso.

 

Partilhamos toda uma casa e todas as tarefas, aliás não há tarefas que são de um ou que são de outro, as coisas são naturais, e se um não faz, faz o outro e completa. Com exceção de passar a roupa ferro, que o moço oferece de boa vontade, é a única coisa que ele dispensa, mas que se não tiver outro remédio, lá tem de ser. Por exemplo, estive uma semana fora em trabalho, deixei-lhe a roupa de trabalho passada a ferro, mas há sempre outras peças que precisa e que teve de se desenrascar.

 

Somos muito companheiros no que toca à casa, aliás somos companheiros em tudo, e sabia que esta seria a prova que precisavamos, e sinto que ao fim de seis meses é mesmo para a vida. Não é que precisasse desta prova mas é sempre mais uma demonstração de que é. Trabalhamos como equipa, e não há um que faça mais ou um que faça menos. 

 

(imagem retirada daqui)

27
Nov20

Superar a perda de uma pessoa querida

mudadelinha

 

 

Este post já está para ser escrito há muito tempo, mas nunca me senti preparada para tal, e achei a data justa, porque hoje faz um ano que perdi a minha pessoa, a pessoa mais importante da minha vida, a pessoa que mais me apoiou, a pessoa mais presente, a pessoa que nunca me falhou, a pessoa mais tudo: o meu avô Francisco. E a falta que ele faz, não só a mim, mas a toda a família, é inimaginável. Eu acho que a vida segue em frente, o tempo ajuda, mas as saudades nunca se vão, nunca desaparecem.

Queria poder dizer-lhe muita coisa, o meu avô foi e é das pessoas mais importantes da minha vida. Nos momentos bons é dele que me lembro, e como queria poder contar-lhe que arrendei o meu espacinho com o L., e nos maus também é dele que me lembro, porque faz-me tanta falta aquele abraço apertado, e como queria poder contar-lhe que fui despedida, e ouvir o conselho dele.

Os primeiros tempos foram muito difíceis, e a minha mudança para o Algarve ajudou-me muito, porque pude fazer o meu luto sozinha, sem pressões sociais, de que tinha de ir a casa dele, mexer nas coisas dele, e que tinha de ir às finanças ou aqui e acolá, porque tínhamos de resolver a habilitação de herdeiros, e porque havia mil e uma coisas para tratar, que me faziam lembrar todos os dias e todas as horas, de que a partir daquele dia faltava alguém.

Passou um ano, e continua a faltar alguém. E vai sempre faltar, e o lugar na mesa vai estar lá. E deixamos o cinzeiro e os cigarros onde os deixou, nunca lhes mexemos. Ainda está lá metade do cigarro que fumou no último dia, antes de o levarmos para o hospital.

Estava a trabalhar quando o levaram para o hospital, e lembro-me de ir ao hospital vê-lo, fui todos os dias, mas no primeiro dia, entrei sozinha e fiquei paralisada, senti o meu corpo a gelar. Liguei ao L. e disse-lhe que não queria, por tudo, lembrar-me do meu avô assim, não queria que a última imagem do meu avô fosse aquela. E o L. dizia-me que a imagem que eu ia guardar do meu avô nunca seria aquela. E não, não é aquela imagem que guardo, nem é de todo a quero guardar.

Aliás, o que me tem salvo, e é muito por isto que escrevo sobre este tema, são os bons momentos, são todas as memórias e recordações, de uma infância, uma adolescência e de uma vida feliz, com aquela mão ao meu lado, sempre para me amparar e para me dar a melhor palavra. 

São todas as fotografias que lhe tirei, a dar comida às gaivotas e aos gatos, a molhar os pés no mar, e a vender uma cervejinha na adega que tinha e que tanto adorava. As fotografias que tenho dos seus eternos abraços. E, apesar da dor, aconchega-me a alma poder olhar para ele e ouvi-lo sempre que quero, sempre que preciso do calor dele, ou sempre que o imagino a falar comigo.

Vivam todos esses momentos, aqueles momentos que não se pagam, mas filmem muitos momentos em família, ninguém pensa nisso, nunca estamos preparados para momentos assim, para perder as pessoas que amamos, mas filmem muito, ouvir a voz das pessoas faz muita falta, vê-las sorrir também, e sentir o abraço delas, esse nunca mais é possível, mas ajuda as fotografias e os vídeos, onde ouvimos a voz e as gargalhadas juntos.

Passei e passo por fases. Muitos dias maus, alguns dias bons, tenho sobrevivido, melhor até do que alguma vez pensei. Os primeiros meses custaram muito. Há dias que o imagino a falar comigo, há dias que choro porque queria ir almoçar a casa dele. Há dias que tudo me faz lembrar dele, quase todos os dias, e há dias que me lembro que ele só queria que fossemos felizes, e que nos quer ver lutar pelos nossos sonhos e ser felizes.

 

Ajuda-me não ter de lidar todos os dias com esta falta, não ter de ir todos os dias a casa deles, e de fazer as coisas que normalmente fazia com ele. Alivia-me. Ando melhor quando ando distraída, atarefada com o dia-a-dia, preocupada com as mil e uma coisas que tenho para fazer. 

 

Todos os dias me lembro, todos, mas foco-me no bom, tento ouvi-lo sempre como se nunca nos tivesse deixado.

 

Queria deixar uma palavra de esperança, de que quem parte não nos deixa sós, e é difícil, é muito difícil superarmos a perda, é mesmo, mas há vários caminhos. Temos de acreditar que vamos conseguir, que vamos encontrar o melhor caminho e a melhor forma de fazermos o nosso luto, e que esse pode demorar dias, meses ou anos, e que não há problema nenhum com isso, nenhum mesmo.  Cada pessoa tem a sua maneira de encarar e de lidar com as coisas, principalmente com uma perda. A falta do meu avô afetou-nos de maneira diferente e cada encarou de forma diferente. Eu precisei ir com calma. Lembro-me de na semana seguinte, a minha mãe querer que eu fosse ao hospital, fazer qualquer coisa que não me recordo, e eu não consegui. Não consegui porque era demasiado cedo para mim fazer aquela trajetória e aquele percurso, que tanto me marcou. E, lembro-me, de termos de ir a casa dele, procurar por documentos e outras coisas, e eu mal entrei, saí, porque simplesmente não consegui. Ainda hoje me custa ter de ir lá fazer o que quer que seja, porque sim, porque me custa, porque me lembro, e apesar de me querer manter sempre perto, quero encontrar essa liberdade e esse à vontade devagarinho, como se o luto que vou fazendo tivesse vários degraus, várias portas, várias entradas e saídas, que aos bocadinhos vou conseguindo ultrapassar.

 

 

20180217_181751.jpg

 

04
Nov20

Novembro, um mês de esperança

mudadelinha

Novembro, um mês que pouco me diz. Muito pelo contrário, tenho novembro como o mês da chuva, do início do frio. Tenho a sensação de que chega novembro, chega o inverno, apesar de esse só começar em finais de dezembro. Pois bem, este ano o inverno vai ser especial, novembro vai ser especial e dezembro mais especial ainda.

2020 pode ter sido um ano horrível (se foi!), mas teve coisas positivas, momentos bonitos e memoráveis. E o mês de novembro é a concretização de sonhos que nos dão esperança e nos fazem respirar fundo e pensar que não está tudo perdido.

 

No penúltimo mês de 2020, vamos recordar o que 2020 nos trouxe positivo.

Novembro está a começar e espero que seja o mês mais bonito do ano, com uma data dura quase no fim.

 

(esta imagem foi retirada do pinteret)

02
Nov20

Desabafos de 2020

mudadelinha

Nem sei bem que título atribuir a este post, como sempre. O título é sempre um problema.

As últimas semanas não têm disso fáceis, principalmente a última. E este não é de todo um post a queixar-me, não sou de queixar-me muito. O primeiro dia foi mau, o segundo já foi melhor, no terceiro já segui em frente e assim adiante. Não me vale de nada lamentar-me.

Em inícios de setembro rumei ao Algarve, para começar a trabalhar, no fim das férias de verão, e de uma bela temporada no Porto, em casa dos meus pais. Ao longo dos tempos que fui estando pelo Porto, decidi ir enviando alguns currículos e vendo as oportunidades de emprego no norte do país. Primeiro porque nunca fui de estar parada e depois com toda esta situação, sabia perfeitamente que afetaria a minha anterior situação de emprego, que era um estágio em advocacia remunerado. Quando tomei a decisão de ir trabalhar para o Algarve foi uma decisão definitiva, nunca pensei regressar de forma tão breve ao Porto, sabia que se corresse tudo bem, era lá que queria estar. Já falei disso várias vezes aqui pelo blog. Mas, a pandemia afetou a vida e o trabalho de todos, inclusive o meu. Para me precaver, decidi mandar currículos. Em inícios de Agosto, fui a uma entrevista no Porto, para um escritório que já conhecia há muito tempo, para uma vaga que me era familiar, num sitio que também me era familiar, e onde me era possível conciliar trabalhar de forma remunerada, aprender e adquirir outras competências, e terminar o pouco que me falta do meu estágio. A entrevista correu bem, mas nunca obtive resposta.

Em inícios de setembro, rumei ao Algarve, quando me deram feedback positivo de que podia voltar presencialmente para o escritório. As condições eram diferentes, ainda assim satisfatórias, e tinha a oportunidade de voltar ao meu cantinho. Ao longo da viagem, fui-me mentalizando que voltaria ao Algarve, que tão bem me recebeu, que me iria afastar novamente do L., dos meus amigos e família.

Mal estacionei o carro à frente do apartamento, recebo uma chamada, do escritório do Porto, a questionar quando poderia começar a trabalhar, se tinha disponibilidade imediata, ou se já não estava interessada. E aqui começa a saga das más decisões, porque nisso eu sou profissional.

Ainda ponderei aceitar ou não, mas a balança pesou mais para voltar ao Porto, porque estaria mais perto da minha zona de conforto, apesar de adorar o Algarve e de me ver a ficar por lá. A família e o L. apoiavam o regresso, o meu coração dizia-me que devia ficar no Algarve. Mas, não pensei muito. Disseram-me que estaria um mês à experiência e que depois assinaria contrato de trabalho. A remuneração era atrativa, principalmente para quem esteve anos a estagiar sem receber nada. Decidi aceitar a proposta, sem grandes certezas profissionais, e logo naquela semana voltei a casa, para começar a trabalhar na segunda. Senti-me feliz, mas nostálgica, disse a semana toda que ia ter saudades da minha vida no Algarve, apesar de ainda ter de lá voltar muitas vezes para resolver assuntos profissionais e para terminar a parte formal do estágio.

Um mês passou-se, tive 3 dias de formação intensiva, porque fui substituir a pessoa que lá estava naquela função. Familiarizei-me com a função, porque tinha experiência naquelas funções, não me era estranho. Gostei do ambiente, imaginei-me a ficar lá a trabalhar, gostei das pessoas e do ambiente do escritório.

Ao fim de um mês, cortaram-me as asas. O mês de experiência tinha passado rápido, não tinham gostado a 100% de mim, procuravam outro tipo de pessoa, e por isso prescindiam dos meus serviços, sem qualquer tipo de compaixão. Confesso que foi uma valente chapada de luva branca, saí de lá com as lágrimas nos olhos, e mal cheguei ao carro, com toda a minha tralha, fiz a viagem toda a chorar, porque precisava de chorar e de exteriorizar o que estava a sentir. Achei que tinha encontrado a minha oportunidade e morri a chegar ao mar, foi esta a sensação, continua a ser.

Mas, como digo, o primeiro dia foi mau, o segundo também, no terceiro acordei de manhã e pensei que a vida não acabava ali e estive o dia todo a mandar currículos e a procurar soluções.

 

Não sou de baixar os braços, mas faltou pouco para desistir, faltou mesmo muito pouco desta vez. Mas não o vou fazer, porque algo melhor me espera certamente.

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