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Coisas (des)Interessantes

Coisas (des)Interessantes

30
Mai20

O corpo de cada um

mudadelinha
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Este é para mim dos assuntos mais delicados e mais complicados de falar. Deve ser a primeira vez que o faço assim, e por me ser um assunto tão sensível, talvez não me expresse da melhor forma ou da forma que gostaria.

Não sei se seguem a conta de Instagram da Mariana (Soares Branco), mas ela é assídua a falar sobre o tema, e foi um bocadinho por causa dos stories que partilhou esta semana que senti necessidade de ter esta conversa. Além disso, e de me ter identificado tanto com o que ela disse, tive uma conversa com o L. sobre como me sentia desconfortável quando as pessoas apreciavam e apreciam livremente o meu corpo e a minha magreza, como se lhes tivesse pedido opinião. E ainda o que me deixa mais incomodada é, talvez pela afeição que tenho por alguma dessas pessoas, não conseguir responder o que quero quando me dizem determinadas coisas.

Antes de mais, e mais uma razão pela qual talvez não me expresse da melhor maneira, é que acho que isto é tudo uma questão de educação, e talvez por ter sido educada a respeitar os outros, fossem eles como fossem, me faz tanta confusão quando ouço determinadas coisas. E, acreditem, não sou pessoa de me deixar ficar, de todo, sou chamada inúmera vezes à atenção por causa disso, porque não me torno simpática quando me dizem “Estás magra que nem um palito, o moço tem onde agarrar?”, mas será de esperar outra coisa quando nos dizem isto? Que seja simpática? Que me ria e faça de conta que está tudo bem e que não foi nada? Não sou assim, tenho sempre resposta na ponta da língua, porque não entendo que estejam a ser irónicos ou que estejam a brincar.

Explico um bocadinho da minha história e desta minha “luta”, se assim o posso chamar, tenho 1,60cm e o meu peso oscila, há muitos anos, entre os 44kg e os 46kg, se tanto, chegar aos 46kg já é uma vitória. Quando era mais nova e andava no secundário, pesava mais, porque praticava imenso exercício físico e tinha muita massa muscular, além de que tinha mais apetite, derivado disso também. O meu peso máximo foram 60/62kg, no ano antes de emagrecer abruptamente, e sem razão aparente. Mas, para mim, o pesar mais não significa que fosse mais saudável, porque não era. Quer dizer era, porque praticava mais exercício, mas não tinha cuidado nenhum com a alimentação. Além disso, e devido à minha estrutura óssea, pesava mais, mas era totalmente disforme, não tinha um corpo de todo bonito, nunca o achei pelo menos.

Nessa altura, o que me salvava era o gosto pelo exercício físico, principalmente pelo voleibol, e era isso também que me fazia continuar e que me fez nunca desistir de nada, porque detestava ver-me ao espelho, não me sentia bem e não gostava do meu corpo. Tinha vergonha de ir à praia ou à piscina com amigos, se fosse escondia-me atrás da minha t-shirt e resistia à tentação de ir à água, para não ter de me mostrar de bikini. Fui assim muitos anos, nunca ultrapassei muito bem isso, também era uma adolescente, e os adolescentes são cruéis uns com os outros. Se tens vergonha, eles fazem-te ter mais. E passei situações muito desagradáveis, nunca me soube defender delas, e deixava que gozassem comigo, ou que mandassem piadas parvas. Em contrapartida, tinha pessoas que me tentavam subir a autoestima, mas ainda assim aquilo era um atentado para mim, porque eu não me sentia bem. E essa era a principal questão. Apesar de nunca ter ultrapassado muito bem isso, aprendi a tentar gostar de mim como era, porque se não o fizesse, ninguém o ia fazer por mim. Aprendi a viver com isso e aprendi a lidar com o corpo que tinha e que era meu e de mais ninguém.

Na minha passagem do secundário para a faculdade, deixei de praticar tanto desporto, e comecei a emagrecer, também por outros problemas que tive, que não quero falar sobre isso, porque passados tantos anos já os aceitei. Quando dei por mim tinha 45 kg, e assim estou até hoje. Por muito que tente aumentar de peso e que tenha cuidados não o consigo, já fui acompanhada muitas vezes, e chegamos à conclusão que tudo se devia ao meu sistema nervoso.

Todas as pessoas se lembram de mim assim, porque me conheceram muito magra, nunca me conheceram de outra forma. E se há pessoas simpáticas, os meus amigos, há outras que são completamente desnecessárias, e sempre fui educada que não devemos comentar o corpo ninguém, porque o corpo de alguém tem uma história por trás, e essa pessoa tem uma história, fácil ou difícil, e não sabemos se a pessoa se sente bem ou não com o corpo dela. Não sabemos se vamos magoar ou se a vamos fazer feliz, então o melhor é remetermo-nos ao silencio. Aliás, nem é remetermo-nos ao silêncio, é não olharmos para o corpo dos outros, e nem no nosso consciente comentarmos.

Hoje sou magra, muito magra vá, e não me sinto bem com isso, gostava de pesar mais, gostava de não ter metade dos problemas que tenho com o meu corpo e com o meu sistema nervoso. Mas, aprendi a aceitar-me. Não foi uma tarefa muito fácil, lutei muitos anos com isso, de olhar-me ao espelho e gostar do que via. Não vestia a roupa toda que gostava, porque me fazia mais magra, porque mostrava todas as minhas sensibilidades físicas, e então escondia-me. Mas, do que adianta escondermo-nos? Se não gostar de mim, ninguém o fará, sou eu que tenho de o fazer, que tenho de aceitar-me como sou.

 

Gorda não é insulto e magra não é elogio. Este é o lema. É que todos temos as nossas inseguranças, e no final do dia, o que importa é ter saúde e sermos saudáveis. Não sou menos mulher por não ter curvas. As pessoas ficam chocadas quando digo que gosto de mim, e gostava das duas formas, quando tinha mais peso e agora que tenho menos. E se umas vezes brinco com o assunto, outras digo às pessoas para se calarem e olharem para elas. Passei anos a querer as mamas e o rabo que não tenho, nem nunca terei. Até que chegou o dia que decidi amar-me a mim e ao que vejo no espelho. Esse dia chegou, e a partir desse dia deixei de aceitar comentários.

Amor próprio é o que tenho e é o que aconselho. Porque, grande parte das pessoas que criticam e comentam, não o têm, e tentam fazer o efeito inverso: é mais fácil criticar-me a mim, por ser gorda ou magra, do que aprender a gostar dela e ter amor-próprio.

 

Não sei se passei bem a mensagem que queria,  pelo enos da forma que queria, mas foi um desabafo sensível sobre o assunto, sei que não sou a única a passar por isto. E precisamos de ser uns para os outros, além do amor-próprio, o civismo e o respeito.

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