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Coisas (des)Interessantes

Coisas (des)Interessantes

02
Nov20

Desabafos de 2020

mudadelinha

Nem sei bem que título atribuir a este post, como sempre. O título é sempre um problema.

As últimas semanas não têm disso fáceis, principalmente a última. E este não é de todo um post a queixar-me, não sou de queixar-me muito. O primeiro dia foi mau, o segundo já foi melhor, no terceiro já segui em frente e assim adiante. Não me vale de nada lamentar-me.

Em inícios de setembro rumei ao Algarve, para começar a trabalhar, no fim das férias de verão, e de uma bela temporada no Porto, em casa dos meus pais. Ao longo dos tempos que fui estando pelo Porto, decidi ir enviando alguns currículos e vendo as oportunidades de emprego no norte do país. Primeiro porque nunca fui de estar parada e depois com toda esta situação, sabia perfeitamente que afetaria a minha anterior situação de emprego, que era um estágio em advocacia remunerado. Quando tomei a decisão de ir trabalhar para o Algarve foi uma decisão definitiva, nunca pensei regressar de forma tão breve ao Porto, sabia que se corresse tudo bem, era lá que queria estar. Já falei disso várias vezes aqui pelo blog. Mas, a pandemia afetou a vida e o trabalho de todos, inclusive o meu. Para me precaver, decidi mandar currículos. Em inícios de Agosto, fui a uma entrevista no Porto, para um escritório que já conhecia há muito tempo, para uma vaga que me era familiar, num sitio que também me era familiar, e onde me era possível conciliar trabalhar de forma remunerada, aprender e adquirir outras competências, e terminar o pouco que me falta do meu estágio. A entrevista correu bem, mas nunca obtive resposta.

Em inícios de setembro, rumei ao Algarve, quando me deram feedback positivo de que podia voltar presencialmente para o escritório. As condições eram diferentes, ainda assim satisfatórias, e tinha a oportunidade de voltar ao meu cantinho. Ao longo da viagem, fui-me mentalizando que voltaria ao Algarve, que tão bem me recebeu, que me iria afastar novamente do L., dos meus amigos e família.

Mal estacionei o carro à frente do apartamento, recebo uma chamada, do escritório do Porto, a questionar quando poderia começar a trabalhar, se tinha disponibilidade imediata, ou se já não estava interessada. E aqui começa a saga das más decisões, porque nisso eu sou profissional.

Ainda ponderei aceitar ou não, mas a balança pesou mais para voltar ao Porto, porque estaria mais perto da minha zona de conforto, apesar de adorar o Algarve e de me ver a ficar por lá. A família e o L. apoiavam o regresso, o meu coração dizia-me que devia ficar no Algarve. Mas, não pensei muito. Disseram-me que estaria um mês à experiência e que depois assinaria contrato de trabalho. A remuneração era atrativa, principalmente para quem esteve anos a estagiar sem receber nada. Decidi aceitar a proposta, sem grandes certezas profissionais, e logo naquela semana voltei a casa, para começar a trabalhar na segunda. Senti-me feliz, mas nostálgica, disse a semana toda que ia ter saudades da minha vida no Algarve, apesar de ainda ter de lá voltar muitas vezes para resolver assuntos profissionais e para terminar a parte formal do estágio.

Um mês passou-se, tive 3 dias de formação intensiva, porque fui substituir a pessoa que lá estava naquela função. Familiarizei-me com a função, porque tinha experiência naquelas funções, não me era estranho. Gostei do ambiente, imaginei-me a ficar lá a trabalhar, gostei das pessoas e do ambiente do escritório.

Ao fim de um mês, cortaram-me as asas. O mês de experiência tinha passado rápido, não tinham gostado a 100% de mim, procuravam outro tipo de pessoa, e por isso prescindiam dos meus serviços, sem qualquer tipo de compaixão. Confesso que foi uma valente chapada de luva branca, saí de lá com as lágrimas nos olhos, e mal cheguei ao carro, com toda a minha tralha, fiz a viagem toda a chorar, porque precisava de chorar e de exteriorizar o que estava a sentir. Achei que tinha encontrado a minha oportunidade e morri a chegar ao mar, foi esta a sensação, continua a ser.

Mas, como digo, o primeiro dia foi mau, o segundo também, no terceiro acordei de manhã e pensei que a vida não acabava ali e estive o dia todo a mandar currículos e a procurar soluções.

 

Não sou de baixar os braços, mas faltou pouco para desistir, faltou mesmo muito pouco desta vez. Mas não o vou fazer, porque algo melhor me espera certamente.

12
Mar20

Doente e sozinha

mudadelinha

Este também era um dos meus principais medos. Ficar doente e não saber o que fazer, e estar sozinha. Não tenho grandes amigos nesta zona, com exceção dos meus colegas de trabalho.

Ficar constipada nesta altura foi assustador, primeiro por causa das notícias do COVID-19, depois porque não sou daqui, nunca me dirigi aqui a um hospital ou a um centro de saúde, não tenho médico de família aqui sequer, depois porque tenho toda a minha família numa zona de “risco”, onde já existem alguns casos positivos. Não sou mesmo de alarmismos, estou mais assustada por estarem a fechar tudo, do que com o vírus propriamente dito.

Já estava adoentada há uns dias, as mudanças de temperatura devido ao ar condicionado alteram-me todo o sistema, e o clima também, que é totalmente diferente daquilo que estou habituada. Este também é um dos pontos de adaptação, porque é muito bonito estar sempre calor e sol, mas isso tem outras consequências.

Na segunda cheguei ao escritório mesmo constipada, já tinha comprado medicamentos e parecia-me que seriam alergias. Chamaram-me à atenção que devia ter ficado em casa a recompor-me, mas para mim ficar em casa por causa de uma simples constipação era demais. Mas, lá está, esqueci-me que as pessoas estão todas assustadas por causa do vírus. A meio da tarde, no fim de uma formação, lá me pareceu razoável ficar por casa e recuperar bem. Na terça, não existiam melhorias, decidi dirigir-me a algum sítio que me ajudassem, lá fui ao centro de saúde mais próximo e de lá segui para o Hospital de Faro.

No Hospital de Faro, ao fim de umas horas de espera nas urgências, concluíram que mais não seria do que alergias e uma inflamação leve na garganta. Nada de novidades, portanto. A medicação foi igual à que já estava a tomar, e recomendaram-me os cuidados normais, principalmente por ter as defesas mais frágeis.

A verdade é que fiquei 2 dias e meio sozinha em casa a recuperar e isso era o que me assustava, e não foi muito agradável. Porque, pode parecer estranho, mas companhia nestes dias sabe bem. Mas, tudo se recompôs.

Já estou bem, fiquei bem, e não sou um caso positivo de CODAVID-19, felizmente.  Ao fim destes 3 dias, sinto uma pontinha de orgulho desmedida, porque já não tenho de ter medo de ficar doente e sozinha. Mais um obstáculo superado com sucesso!

 

 

 

28
Fev20

O início da aventura de viver sozinha

mudadelinha

Gostava de começar pelo início, mas nem sei bem como é que isto começou. Há uns dias fez um mês que estou a viver sozinha, a 500km de casa, longe da minha família, namorado e amigos. E, nada melhor que fazer um balanço do primeiro mês e pensar como é que isto começou.

Vim cá em Novembro, ainda o meu avô estava doente (aqueles momentos que nos marcam), e lembro-me de vir no comboio a pensar “E se a resposta for positiva? Largo tudo e venho? Vou ponderar, não vou ponderar?”. Vinha cheia de receios e de medos, mas vinha cheia de vontade de arriscar de mudar tudo, toda a minha vida, todo o meu dia-a-dia. E o L. vinha comigo, embarcou comigo na aventura, de vir ao Algarve umas horas, para uma entrevista, que tanto podia correr bem, como podia correr mal. Se estava preparada para tal, penso que sim.

A verdadeira aventura começou com a procura de casa! Eu sabia que não ia ser fácil, mas não pensei que fosse tão difícil. Por breves momentos, achei mesmo que seria impossível conseguir um T0/T1 por menos de 500€ e que não me pedissem os rins e os ovários de adiantamento e caução. Mais, que fosse por menos de 500€ e que fosse arrendamento anual, porque no Algarve o pão-nosso-de-cada-dia são os "arrendamentos por temporadas", ou nos meses de Verão. É tão-só ridículo. 

Ao fim de umas semanas de emails, telefonemas e mensagens, lá me caiu do céu um T1, perto de Tavira, por um preço aceitável, mas que não é em Tavira, como eu queria e quero, porque Tavira é uma cidade caríssima para arrendar ou até mesmo comprar. O ramo imobiliário por estes lados está assustador.

Queria um t0/t1 para ter condições, não só para mim, mas para receber a minha família, namorado e amigos, ao invés de ter de partilhar casa e ter um quarto, apesar de ter mais companhia, isso envolve outra logística a que não estou habituada, então coloquei logo essa hipótese de lado.

Quando consegui casa, onde não me pediram balúrdios de caução ou de rendas adiantadas, lá defini um dia para me mudar e as mudanças Porto-Algarve foram outra aventura não é verdade? Estamos a falar de 500km de distância. Fiz duas viagens de comboio e de autocarro, porque podemos trazer toda a bagagem que quisermos, e a última fiz de carro, o que tornou tudo mais fácil, porque alberguei no carro toda a minha casa. Estamos a falar de roupa, calçado, coisas para a casa e livros e tralha de material de estudo. Não foi de todo fácil, mas foi possível, e foi-se fazendo à medida que fui a casa.

Uma nova etapa começou, uma fase nova da minha vida, e por estranho que seja dizer isto, mais em voz alta, estou a gostar. Estou a gostar particularmente de morar sozinha, do silêncio e da solidão, acho que sempre precisei disto. As lágrimas aproximam-se dos olhos na hora da despedida, mas voam na hora que tenho os pés em terras algarvias e sinto que esta agora é a minha vida. E está tudo à distância de um telefonema, de uma chamada via Skype ou via Facebook.

Não me tem custado estar sozinha, fazer as lides de casa, cozinhar para mim, fazer compras para mim, chegar a casa e não ter ninguém e ter a casa como a deixei. Tem sido bom!

 

Esta aventura continua, todos os dias há uma coisa nova para contar.

 

Resultado de imagem para viver sozinho e feliz

(esta imagem foi tirada daqui)

31
Jan20

Um olá com saudades

mudadelinha

Gostava de dizer que estive tanto tempo afastada por boas razões. Nem sei bem por onde começar, mas acho que começar pelas boas noticias é sempre um sinal positivo.

 

Este é o primeiro post de 2020, o primeiro que escrevo sentada na minha mesa de jantar, no Algarve, e o primeiro que vos escrevo depois do meu avô ter falecido em Novembro.

 

É inevitável o aperto no peito quando escrevo e penso nisto, porque ainda não fiz o meu luto, porque a minha dor ainda não curou, a ficha ainda não caiu, nunca vai cair e as lágrimas começam logo a correr, porque a saudade é gigante e a dor é ainda maior.

 

Sair de casa e para tão longe foi a melhor decisão da minha vida, pelo menos para já, não só pela independência pessoal e financeira (creio que essa até foi a razão menos ponderada), mas porque foi a minha forma de fugir, foi o meu refúgio. A ideia de que brevemente esta mudança ia acontecer foi o que me salvou. E é o que me tem salvo! E, muito por isso, ainda não fiz o meu luto, tenho lidado bem com isso, tento não me deixar cair, não me deixar ir muito ao fundo, e aguento-me bem sozinha. 

 

Espero conseguir continuar a partilhar esta grande aventura por aqui, quero mesmo muito, tenho tanto para escrever e para contar, mas hoje não! Hoje as palavras ainda não fluem como eu queria, aos bocadinhos vou conseguir.

18
Mai19

Não tenho um título para dar

mudadelinha

A minha vida, nos últimos meses, não tem sido fácil, daí o meu desaparecimento por estes lados, porque tem sido mesmo difícil ter tempo para tudo, motivação também confesso, e apesar não ter sido uma coisa que eu quisesse propositadamente, acabei por me distanciar um bocadinho, por muitas razões, mas principalmente para ter tempo para mim e para os meus, para pensar e refletir sobre muita coisa, essencialmente sobre a minha vida e o meu futuro.

A nível profissional, o ano que passou foi um ano de esperança, que as coisas iam começar a encaixar-se e a correr bem. Comecei finalmente o meu estágio da Ordem dos Advogados, não começou da melhor forma, desabafei muito sobre isso, mas lá encontrei o meu lugarzinho, que apesar de não ser o melhor do mundo, identifiquei-me e senti-me mais aliviada. 2018 ensinou-me mesmo muita coisa, ensinou-me que as coisas se vivem com calma, que tudo acontece a seu tempo, não vale a pena ter pressa, porque isso só traz frustração, revolta, desmotivação e desanimo. Com a ajuda do L., consegui esse equilíbrio na minha vida e na minha mente, porque não era uma pessoa assim antes de o conhecer.

Ao longo de 2018 criei muitas expectativas para o ano que se aproximava, expectativas pessoais e profissionais, derivados do fim do meu estágio da ordem profissional e com a minha possível aprovação no exame de agregação. Sabia que não seria de todo fácil, nunca o foi, mas também aprendi que tudo o que vale a pena não é fácil, implica muitas horas de esforço e dedicação, muito foco e disciplina, e muita vontade. E, vontade foi coisa que nunca me faltou, às vezes falha-me a força e a fé na humanidade, são coisas diferentes acho.

Em abril terminei o meu estágio, que não foi de todo fácil, nem de mão beijada. Para pensar sequer que podia terminá-lo foram muitas horas, foram dilemas atrás de dilemas, entre terminar e arriscar, ou jogar pelo seguro e pedir prorrogação de 6 meses, como tantos outros colegas o fizeram. Mas, no inicio do estágio eu tinha estabelecido que se tivesse tudo o que era exigido para o terminar assim o faria, nem medos, nem incertezas, e assim foi. Ao longo da segunda fase de estágio, que durou 1 ano, consegui fazer tudo o que o nosso regulamento exige: 20 assistências (10 sozinha e 10 acompanhada pela patrona ou advogado de confiança, das quais 5 em civil e 5 em penal), 5 intervenções em audiências de julgamento e 6 peças subscritas por mim, estagiária, e pela minha patrona. Custou muito, mas consegui, e em abril assim o fiz, entreguei todos os relatórios, que muitas horas de sono me tiraram, no dia 18 de abril no dia anterior ao aniversário do L., porque não quis agendar para depois, porque era o fim de semana da páscoa.

 

Depois de entregar tudo o que tinha para entregar consegui respirar um bocadinho de alivio, senti uma pontinha de orgulho, por todo o percurso até ali e pensei “falta tão pouco!”. O exame era a meta final, e setembro era o inicio de tudo, se consegui a tão esperada aprovação podia-me considerar advogada. Comecei a preparar o exame em janeiro, logo depois do Natal, a juntar e atualizar a legislação todo, comprar códigos e material, imprimir todos os exames de anos anteriores, e todo o material de apoio que iria precisar, para começar a estudar com antecedência e não deixar tudo para última da hora.

E esse foi um dos meus grandes erros, ter criado dentro de mim e dos meus, tantas expectativas para setembro de 2019, porque nunca, mas nunca, ao longo destes dois, equacionei que alguma coisa fosse correr, não deixei de dar o meu melhor, de me esforçar e fazer T-U-D-O o que estava ao meu alcance para não desiludir novamente os que gostam e fazem tudo por mim.

 

Mas, aconteceu. Esta semana recebi a noticia que os meus relatórios de estágio não serão aceites, por uma simples peça não subscrita, e que não serei admitida, nem à entrevista, nem ao exame final. Entrei em choque, e voltei a tentar o tudo por tudo, fazer tudo o que estava ao meu alcance para que tal não pudesse acontecer, mas logo de seguida recebo um email que ainda realça mais esse aviso. E não posso pedir a prorrogação, porque ou era uma coisa, ou outra.

Estes dias não têm sido mesmo fáceis, nem para mim, nem para os que me são mais próximos, e como não os quero massacrar com o assunto, porque sei que eles estão tão desanimados como eu, preferi escrever sobre o assunto. Pelo menos desse lado ninguém me conhece, e posso falar à vontade sobre isto. Sinto-me desanimada, desmotivada, os meus dias não têm nada para eu fazer, não me sinto de férias, porque o ‘botão’ do exame já estava ligado, e já estava a estudar arduamente para o exame. Cortaram-me as pernas antes de sequer chegar à praia. E sinto-me perdida, mesmo muito perdida, porque não sei o que vou fazer à minha vida daqui para a frente. Voltar a estagiar 18 é uma opção, a opção mais próxima até, porque cancelam-me inscrição e posso voltar a inscrever-me sem setembro deste ano. Sinto-me sem objetivos, sem metas, e tem sido muito difícil lidar com isso, olhar para um lado e não ter nada para fazer, e olhar para o outro e ver um estágio não remunerado de 18 meses à minha frente.

 

Eu quero só passar a mensagem, e é mesmo só isto que quero transmitir, além do desabafo é claro, de que tudo é possível, e apesar de desiludida, continuo a acreditar que as coisas acontecem a seu tempo, e não vale a pena ter pressa. Estou preparada que os próximos dias vão ser difíceis, não estava preparada para isto, não me preparei para esta hipótese, ainda assim, creio que ter-me preparado para esta hipótese não era uma opção viável, nunca nos metemos numa coisa a ponderar que vai correr mal, eu pelo menos não sou assim. Acredito que daqui a uma semana me vou sentir melhor, tenho pensado tirar uma semana para mim, possivelmente viajar sozinha até um sitio relativamente perto, para puder pensar e cuidar da minha mente, criar objetivos, recarregar forças e energias, e colocar novamente cartas em cima da mesa.

 

 

E, acreditem, não se desiste, mesmo quando tudo nos empurra para essa mísera opção!

Ah! E estou de volta 

 

 

 

 

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