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Coisas (des)Interessantes

Coisas (des)Interessantes

12
Mar20

Doente e sozinha

mudadelinha

Este também era um dos meus principais medos. Ficar doente e não saber o que fazer, e estar sozinha. Não tenho grandes amigos nesta zona, com exceção dos meus colegas de trabalho.

Ficar constipada nesta altura foi assustador, primeiro por causa das notícias do COVID-19, depois porque não sou daqui, nunca me dirigi aqui a um hospital ou a um centro de saúde, não tenho médico de família aqui sequer, depois porque tenho toda a minha família numa zona de “risco”, onde já existem alguns casos positivos. Não sou mesmo de alarmismos, estou mais assustada por estarem a fechar tudo, do que com o vírus propriamente dito.

Já estava adoentada há uns dias, as mudanças de temperatura devido ao ar condicionado alteram-me todo o sistema, e o clima também, que é totalmente diferente daquilo que estou habituada. Este também é um dos pontos de adaptação, porque é muito bonito estar sempre calor e sol, mas isso tem outras consequências.

Na segunda cheguei ao escritório mesmo constipada, já tinha comprado medicamentos e parecia-me que seriam alergias. Chamaram-me à atenção que devia ter ficado em casa a recompor-me, mas para mim ficar em casa por causa de uma simples constipação era demais. Mas, lá está, esqueci-me que as pessoas estão todas assustadas por causa do vírus. A meio da tarde, no fim de uma formação, lá me pareceu razoável ficar por casa e recuperar bem. Na terça, não existiam melhorias, decidi dirigir-me a algum sítio que me ajudassem, lá fui ao centro de saúde mais próximo e de lá segui para o Hospital de Faro.

No Hospital de Faro, ao fim de umas horas de espera nas urgências, concluíram que mais não seria do que alergias e uma inflamação leve na garganta. Nada de novidades, portanto. A medicação foi igual à que já estava a tomar, e recomendaram-me os cuidados normais, principalmente por ter as defesas mais frágeis.

A verdade é que fiquei 2 dias e meio sozinha em casa a recuperar e isso era o que me assustava, e não foi muito agradável. Porque, pode parecer estranho, mas companhia nestes dias sabe bem. Mas, tudo se recompôs.

Já estou bem, fiquei bem, e não sou um caso positivo de CODAVID-19, felizmente.  Ao fim destes 3 dias, sinto uma pontinha de orgulho desmedida, porque já não tenho de ter medo de ficar doente e sozinha. Mais um obstáculo superado com sucesso!

 

 

 

28
Fev20

O início da aventura de viver sozinha

mudadelinha

Gostava de começar pelo início, mas nem sei bem como é que isto começou. Há uns dias fez um mês que estou a viver sozinha, a 500km de casa, longe da minha família, namorado e amigos. E, nada melhor que fazer um balanço do primeiro mês e pensar como é que isto começou.

Vim cá em Novembro, ainda o meu avô estava doente (aqueles momentos que nos marcam), e lembro-me de vir no comboio a pensar “E se a resposta for positiva? Largo tudo e venho? Vou ponderar, não vou ponderar?”. Vinha cheia de receios e de medos, mas vinha cheia de vontade de arriscar de mudar tudo, toda a minha vida, todo o meu dia-a-dia. E o L. vinha comigo, embarcou comigo na aventura, de vir ao Algarve umas horas, para uma entrevista, que tanto podia correr bem, como podia correr mal. Se estava preparada para tal, penso que sim.

A verdadeira aventura começou com a procura de casa! Eu sabia que não ia ser fácil, mas não pensei que fosse tão difícil. Por breves momentos, achei mesmo que seria impossível conseguir um T0/T1 por menos de 500€ e que não me pedissem os rins e os ovários de adiantamento e caução. Mais, que fosse por menos de 500€ e que fosse arrendamento anual, porque no Algarve o pão-nosso-de-cada-dia são os "arrendamentos por temporadas", ou nos meses de Verão. É tão-só ridículo. 

Ao fim de umas semanas de emails, telefonemas e mensagens, lá me caiu do céu um T1, perto de Tavira, por um preço aceitável, mas que não é em Tavira, como eu queria e quero, porque Tavira é uma cidade caríssima para arrendar ou até mesmo comprar. O ramo imobiliário por estes lados está assustador.

Queria um t0/t1 para ter condições, não só para mim, mas para receber a minha família, namorado e amigos, ao invés de ter de partilhar casa e ter um quarto, apesar de ter mais companhia, isso envolve outra logística a que não estou habituada, então coloquei logo essa hipótese de lado.

Quando consegui casa, onde não me pediram balúrdios de caução ou de rendas adiantadas, lá defini um dia para me mudar e as mudanças Porto-Algarve foram outra aventura não é verdade? Estamos a falar de 500km de distância. Fiz duas viagens de comboio e de autocarro, porque podemos trazer toda a bagagem que quisermos, e a última fiz de carro, o que tornou tudo mais fácil, porque alberguei no carro toda a minha casa. Estamos a falar de roupa, calçado, coisas para a casa e livros e tralha de material de estudo. Não foi de todo fácil, mas foi possível, e foi-se fazendo à medida que fui a casa.

Uma nova etapa começou, uma fase nova da minha vida, e por estranho que seja dizer isto, mais em voz alta, estou a gostar. Estou a gostar particularmente de morar sozinha, do silêncio e da solidão, acho que sempre precisei disto. As lágrimas aproximam-se dos olhos na hora da despedida, mas voam na hora que tenho os pés em terras algarvias e sinto que esta agora é a minha vida. E está tudo à distância de um telefonema, de uma chamada via Skype ou via Facebook.

Não me tem custado estar sozinha, fazer as lides de casa, cozinhar para mim, fazer compras para mim, chegar a casa e não ter ninguém e ter a casa como a deixei. Tem sido bom!

 

Esta aventura continua, todos os dias há uma coisa nova para contar.

 

Resultado de imagem para viver sozinho e feliz

(esta imagem foi tirada daqui)

31
Jan20

Um olá com saudades

mudadelinha

Gostava de dizer que estive tanto tempo afastada por boas razões. Nem sei bem por onde começar, mas acho que começar pelas boas noticias é sempre um sinal positivo.

 

Este é o primeiro post de 2020, o primeiro que escrevo sentada na minha mesa de jantar, no Algarve, e o primeiro que vos escrevo depois do meu avô ter falecido em Novembro.

 

É inevitável o aperto no peito quando escrevo e penso nisto, porque ainda não fiz o meu luto, porque a minha dor ainda não curou, a ficha ainda não caiu, nunca vai cair e as lágrimas começam logo a correr, porque a saudade é gigante e a dor é ainda maior.

 

Sair de casa e para tão longe foi a melhor decisão da minha vida, pelo menos para já, não só pela independência pessoal e financeira (creio que essa até foi a razão menos ponderada), mas porque foi a minha forma de fugir, foi o meu refúgio. A ideia de que brevemente esta mudança ia acontecer foi o que me salvou. E é o que me tem salvo! E, muito por isso, ainda não fiz o meu luto, tenho lidado bem com isso, tento não me deixar cair, não me deixar ir muito ao fundo, e aguento-me bem sozinha. 

 

Espero conseguir continuar a partilhar esta grande aventura por aqui, quero mesmo muito, tenho tanto para escrever e para contar, mas hoje não! Hoje as palavras ainda não fluem como eu queria, aos bocadinhos vou conseguir.

18
Mai19

Não tenho um título para dar

mudadelinha

A minha vida, nos últimos meses, não tem sido fácil, daí o meu desaparecimento por estes lados, porque tem sido mesmo difícil ter tempo para tudo, motivação também confesso, e apesar não ter sido uma coisa que eu quisesse propositadamente, acabei por me distanciar um bocadinho, por muitas razões, mas principalmente para ter tempo para mim e para os meus, para pensar e refletir sobre muita coisa, essencialmente sobre a minha vida e o meu futuro.

A nível profissional, o ano que passou foi um ano de esperança, que as coisas iam começar a encaixar-se e a correr bem. Comecei finalmente o meu estágio da Ordem dos Advogados, não começou da melhor forma, desabafei muito sobre isso, mas lá encontrei o meu lugarzinho, que apesar de não ser o melhor do mundo, identifiquei-me e senti-me mais aliviada. 2018 ensinou-me mesmo muita coisa, ensinou-me que as coisas se vivem com calma, que tudo acontece a seu tempo, não vale a pena ter pressa, porque isso só traz frustração, revolta, desmotivação e desanimo. Com a ajuda do L., consegui esse equilíbrio na minha vida e na minha mente, porque não era uma pessoa assim antes de o conhecer.

Ao longo de 2018 criei muitas expectativas para o ano que se aproximava, expectativas pessoais e profissionais, derivados do fim do meu estágio da ordem profissional e com a minha possível aprovação no exame de agregação. Sabia que não seria de todo fácil, nunca o foi, mas também aprendi que tudo o que vale a pena não é fácil, implica muitas horas de esforço e dedicação, muito foco e disciplina, e muita vontade. E, vontade foi coisa que nunca me faltou, às vezes falha-me a força e a fé na humanidade, são coisas diferentes acho.

Em abril terminei o meu estágio, que não foi de todo fácil, nem de mão beijada. Para pensar sequer que podia terminá-lo foram muitas horas, foram dilemas atrás de dilemas, entre terminar e arriscar, ou jogar pelo seguro e pedir prorrogação de 6 meses, como tantos outros colegas o fizeram. Mas, no inicio do estágio eu tinha estabelecido que se tivesse tudo o que era exigido para o terminar assim o faria, nem medos, nem incertezas, e assim foi. Ao longo da segunda fase de estágio, que durou 1 ano, consegui fazer tudo o que o nosso regulamento exige: 20 assistências (10 sozinha e 10 acompanhada pela patrona ou advogado de confiança, das quais 5 em civil e 5 em penal), 5 intervenções em audiências de julgamento e 6 peças subscritas por mim, estagiária, e pela minha patrona. Custou muito, mas consegui, e em abril assim o fiz, entreguei todos os relatórios, que muitas horas de sono me tiraram, no dia 18 de abril no dia anterior ao aniversário do L., porque não quis agendar para depois, porque era o fim de semana da páscoa.

 

Depois de entregar tudo o que tinha para entregar consegui respirar um bocadinho de alivio, senti uma pontinha de orgulho, por todo o percurso até ali e pensei “falta tão pouco!”. O exame era a meta final, e setembro era o inicio de tudo, se consegui a tão esperada aprovação podia-me considerar advogada. Comecei a preparar o exame em janeiro, logo depois do Natal, a juntar e atualizar a legislação todo, comprar códigos e material, imprimir todos os exames de anos anteriores, e todo o material de apoio que iria precisar, para começar a estudar com antecedência e não deixar tudo para última da hora.

E esse foi um dos meus grandes erros, ter criado dentro de mim e dos meus, tantas expectativas para setembro de 2019, porque nunca, mas nunca, ao longo destes dois, equacionei que alguma coisa fosse correr, não deixei de dar o meu melhor, de me esforçar e fazer T-U-D-O o que estava ao meu alcance para não desiludir novamente os que gostam e fazem tudo por mim.

 

Mas, aconteceu. Esta semana recebi a noticia que os meus relatórios de estágio não serão aceites, por uma simples peça não subscrita, e que não serei admitida, nem à entrevista, nem ao exame final. Entrei em choque, e voltei a tentar o tudo por tudo, fazer tudo o que estava ao meu alcance para que tal não pudesse acontecer, mas logo de seguida recebo um email que ainda realça mais esse aviso. E não posso pedir a prorrogação, porque ou era uma coisa, ou outra.

Estes dias não têm sido mesmo fáceis, nem para mim, nem para os que me são mais próximos, e como não os quero massacrar com o assunto, porque sei que eles estão tão desanimados como eu, preferi escrever sobre o assunto. Pelo menos desse lado ninguém me conhece, e posso falar à vontade sobre isto. Sinto-me desanimada, desmotivada, os meus dias não têm nada para eu fazer, não me sinto de férias, porque o ‘botão’ do exame já estava ligado, e já estava a estudar arduamente para o exame. Cortaram-me as pernas antes de sequer chegar à praia. E sinto-me perdida, mesmo muito perdida, porque não sei o que vou fazer à minha vida daqui para a frente. Voltar a estagiar 18 é uma opção, a opção mais próxima até, porque cancelam-me inscrição e posso voltar a inscrever-me sem setembro deste ano. Sinto-me sem objetivos, sem metas, e tem sido muito difícil lidar com isso, olhar para um lado e não ter nada para fazer, e olhar para o outro e ver um estágio não remunerado de 18 meses à minha frente.

 

Eu quero só passar a mensagem, e é mesmo só isto que quero transmitir, além do desabafo é claro, de que tudo é possível, e apesar de desiludida, continuo a acreditar que as coisas acontecem a seu tempo, e não vale a pena ter pressa. Estou preparada que os próximos dias vão ser difíceis, não estava preparada para isto, não me preparei para esta hipótese, ainda assim, creio que ter-me preparado para esta hipótese não era uma opção viável, nunca nos metemos numa coisa a ponderar que vai correr mal, eu pelo menos não sou assim. Acredito que daqui a uma semana me vou sentir melhor, tenho pensado tirar uma semana para mim, possivelmente viajar sozinha até um sitio relativamente perto, para puder pensar e cuidar da minha mente, criar objetivos, recarregar forças e energias, e colocar novamente cartas em cima da mesa.

 

 

E, acreditem, não se desiste, mesmo quando tudo nos empurra para essa mísera opção!

Ah! E estou de volta 

 

 

 

 

06
Fev19

A continuação da saga de ser uma advogada estagiária

mudadelinha

Ando nesta vida há um ano e um mês, e confesso-vos, que depois de muitos desabafos, a coisa não melhorou, bem pelo contrário e acreditem que a necessidade de exteriorizar estes últimos meses é muita, caso contrário não o faria, porque tenho todo um exame para preparar e organizar e muitas outras coisas por fazer, porque a vida anda atarefada.

Não sei se já o disse por aqui, mas quando decidi ingressar no curso de direito, a minha verdadeira paixão era direito internacional, e continua a ser, e quando escolhi direito fui muito influenciada pelos meus pais. Não que não o quisesse, bem pelo contrário, mas se não os tivesse ouvido, certamente andaria por aí à procura de emprego com uma licenciatura em história ou em educação, qualquer coisa parecida, porque o meu sonho sempre foi ser professora. De maneira alguma não me arrependo da decisão, ainda hoje a minha mãe fala disso, e apesar de todas as dificuldades que me apareceram em direito, nunca equacionei mudar de curso, nem nunca me senti arrependida de lá estar. Senti-me cansada, frustrada, desmotivada, mas arrependida nunca. A ideia de direito internacional foi desaparecendo ao longo dos anos a estudar direito, não por não ter gostado, mas pelo grau de dificuldade e, mais tarde, a ideia de fazer os exames para o CEJ (Centro de Estudos Judiciários) também, porque essa sempre foi a segunda opção. Senti-me tão cansada no fim da licenciatura e do mestrado, que foi impensável estudar arduamente mais não-sei-quantos meses para um exame dificílimo, em que a probabilidade de ser admitida era minúscula. Eu até sou pessoa que gosto de arriscar e sei que com muito esforço, estudo e dedicação, muito foco, se consegue tudo aquilo que queremos, mas quando a vontade não é muito, é melhor nem tentar, porque é tempo e dinheiro gasto, e é melhor admitirmos isso imediatamente.

       Quando dei por terminada a licenciatura, parei uns tempos para pensar e refletir, e decidi afastar-me substancialmente das minhas ideias iniciais. Ser advogada não é um sonho, nunca o foi, mas é uma profissão onde me imagino, ou imaginava pelo menos. Tive seis meses a ponderar esta hipótese, e mais outras quantas, como se me inscrevia no centro regional do Porto ou no Pólo de Guimarães, se optava pelo horário de pós-laboral, que pessoalmente, sempre gostei mais, e muitas outras questões. Fui muito influenciada, e quando digo muito foi muito mesmo. Tomei todas estas decisões baseada em conselhos, ora dos meus pais, ora da minha antiga patrona e respetiva estagiária, e nunca ouvi o meu coração. Quer dizer, ouvir eu ouvi, só nunca lhe prestei a devida atenção. E tomar decisões baseada nos conselhos dos outros, porque me achava inexperiente, foi a morte do artista e eu nunca tive muito jeito para ser artista.

O meu estágio em advocacia começou mal, com a minha primeira patrona, e não me quero alongar muito neste primeiro tópico, porque foram tempos maus, que às vezes ainda me sobressaltam com uns pesadelos de vez em quando, tal foi a importância que dei ao assunto. Mudei de escritório, e mudei para melhor, nalgumas coisas, para piores noutras. Quer dizer, para pior acho que nunca posso dizer que mudei, porque pior que aquilo era impossível. Digamos que não fui para muito melhor.

Não vou poupar palavras, nem vou esconder, que em direito e em advocacia a média é das coisas mais importantes para o nosso currículo. A média e as línguas, e não é só no mundo do direito, em quase todos os cursos superiores e no mercado de trabalho em geral. É pelo menos a minha opinião. Quando não tens uma média simpática, que é o meu caso, ou tens outros pontos do currículo a teu favor, para conseguires um estágio/emprego razoável, numa empresa ou numa sociedade de advogados, ou vais ter de te sujeitar aos estágios medíocres de advocacia que há por aí, que é o que mais há, e lutar muito por um estágio/emprego equilibrado. E as condições que esses estágios apresentam ainda são mais medíocres que o próprio estágio.

A grande maioria dos estágios não são remunerados, não se ganha nada, se não tivermos nós de pagar para nos deixarem estagiar. E digo-vos, quando saíamos da licenciatura em direito, não estamos preparados para estagiar ao mais alto nível, ou para sermos completamente autónomos e independentes, porque na prática tudo é diferente da teórica, e se na faculdade não fazemos nada sem o apoio da legislação, na prática não precisamos da legislação para quase nada. Aliás, estou a fazer todo um estágio de 18 meses que só pego na legislação para a atualizar, e conto pelos dedos quantas vezes precisei dela para resolver alguma coisa.

É muito desmotivante começarmos numa profissão em que não recebemos nenhuma retribuição, nem nenhuma ajuda para transportes, alimentação, fotocopias, e todas as nossas despesas. É suposto andarmos até ao fim a pedir dinheiro aos nossos pais, como se eles já não nos tivessem pago toda uma licenciatura, na esperança que fossemos gente? É desmotivante, acreditem que é. No meu caso, tento compensar com trabalhos ao fim-de-semana, e até à semana, sempre que posso. Trabalhar nunca fez mal a ninguém, e não tenho medo de trabalhar seja no que for. A mim não me incomoda fazer umas horas no café e ter de sujar as mãos a lavar loiça, ou a varrer, ou a limpar casas de banho. É a única forma que tenho de ajudar os meus pais e de me ajudar a mim, é a trabalhar, e dá muita bagagem para trabalhar com pessoas e conhecer um pouco que seja o mundo de trabalho.

Mas, o mais revoltante, foi o que já disse, mais medíocres são os estágios que nos oferecem, e aqui podia falar por muitos colegas meus, mas falo pela minha experiência. No primeiro escritório, onde estive seis meses, nada aprendi porque nada fiz. O que eu fazia no escritório era estudar para os trabalhos e exames do mestrado. E podem ficar a pensar que a culpa é minha, é completamente legitimo que assim pensem, que fosse falta de vontade de aprender e de trabalhar, mas quando não nos dão trabalho, é preferível estudar do que ficarmos a olhar para as paredes, como muitas vezes me aconteceu. E odeio tempo perdido no Facebook e na internet, digo muitas vezes que tempo é dinheiro, e é uma grande verdade. Os tempos nesse escritório foram horríveis e pesados, o escritório era gelado, cheguei a ficar mesmo doente, e quando mudei, o ambiente e a minha disposição melhoraram.

A verdade é que aceitam estagiários e não têm condições para isso, nem trabalho para lhes oferecer, e muito menos vontade de os ensinar devidamente, e isso é muito mau, porque afinal o que estamos lá a fazer? Ninguém nasce ensinado lamento, todos começaram da mesma forma e alguém teve de os ensinar. Faltam 2 meses para acabar o meu estágio, e quando penso no que aprendi até aqui, desanimo. Quando penso que em Maio posso vir a ter a minha entrevista (entrevista sobre o estágio), e em junho o meu exame final, fico em choque, porque não me sinto preparada. E sabem o pior de tudo? O pior de tudo, para mim, é estarmos dependentes de outra pessoa para concluir o estágio e sermos admitidos ao exame. Digo isto inúmeras vezes, o exame é responsabilidade minha, sou eu que tenho de estudar e sou eu que vou lá estar com a caneta na mão com os meus conhecimentos, o estágio não, estou dependente da vontade alheia, e não tem sido muito agradável estar à espera que os outros me ensinem e me deixem fazer. É muito ingrato, porque ser advogado passa muito por lidar com os problemas dos clientes, e eu compreendo que transferir isso para as mãos de um estagiário sem experiência é perigoso, mas com apoio e acompanhamento tudo se faz, para isso é que estamos lá. Mas digo-vos que, num ano e meio que cá estou, nunca assisti a uma reunião e pouco ou nada falei com algum cliente.

Se nos primeiros meses até acordava bem-disposta para ir para o escritório, hoje já não acontece. Estou muito cansada do escritório, do ambiente, da porcaria do lugar e cadeira de estagiária que me dá cabo das costas e me estraga sempre as meias de vidro (se as levar, que já nem as levo!), de ter de dividir um lugarzinho na secretária do meu patrono, porque nem têm uma secretária, ou um lugar como deve ser. Estou muito cansada dos pormenores e das continhas de tudo: dos clipes, das folhas, do carimbo, se as impressões são a cores ou a preto, do café, de tudo! E, chega ao fim, e somos sempre os mocinhos dos recados, dos arquivos, das fotocópias, do café, das cartas de pagamento dos condomínios, que não nos servem de rigorosamente nada, da pesquisa de jurisprudência e afins.

E o acompanhamento devido que nos deviam dar para sermos capazes de terminar descansados isto, esse nem está previsto no nosso regulamento, é completamente aldrabado, e sabem porquê?  Porque quem paga somos nós, e não é pouco acreditem, se tivermos de prorrogar o estágio pagamos, se reprovarmos pagamos, e pagamos desde o inicio e a responsabilidade é sempre nossa quando estamos dependentes de outros

 

É desmotivante, na maior parte dos dias penso que já faltou mais, que está quase, mas depois paro e penso: e em setembro? O que vou fazer da minha vida? Para onde vou? Vou trabalhar sozinha, abro o meu escritório? Ainda sou uma menina, que não aprendeu nada durante o estágio, como é que vou trabalhar sozinha? Isto ainda mais assustador, tento manter a calma e pensar só nas férias em setembro, se as tiver. A partir de setembro a minha vida está em branco, não consigo ver absolutamente nada a partir dali, e é muito assustador não conseguimos ver o nosso futuro.

 

Tento depositar as minhas energias nos trabalhinhos que vou arranjando, que é o que me vai salvando, e penso que é um dia de cada vez e que não me vale de nada ter pressa, porque no fim tudo se compõe e tudo fica bem. Nem sempre é fácil admito, mas é isto.

 

 

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(daqui)

 

 

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